A OUTRA INGLATERRA, O MUNDO DE IMOGEN E O OUTRO MUNDO DE JONATHAN COE
As mulheres dão a Coe o tom da narrativa: Rosamond; doutora May; tia Ivy; Beatrix; Gill e suas filhas; Thea; Imogen, Rebecca; Ruth; quase todas desajustadas e em desconforto, vivendo relações conflituosas em família (principalmente com as mães) e fora dela. Mulheres que buscam o que nenhum homem pode oferecer, ainda que Beatrix e Thea tivessem tentado. As personagens que estão nos dois extremos do livro, Rosamond e Imogen, parecem menos vulneráveis, mais estáveis, mesmo com tudo o que passaram, o que não impede que tenham um fim triste e injusto. No caso da protagonista, o fim foi premeditado, mas Imogen ?
A última foto. A 20ª. A festa do meu 50º aniversário.
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Você também estava lá, Imogen. Foi minha grande vitória. Convenci sua família a deixá-la vir. E aqui está você, em primeiro plano na foto.
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A outra pessoa na foto é Gill.
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Tenho que descrever, descrever. Só que estou ficando cansada. A história mais ou menos acabou. Apenas mais uma ou duas coisas para lhe dizer.
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Outro gole de uísque, talvez. Ainda tem mais da metade da garrafa.
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Talvez eu é que esteja tempo demais vivendo aqui, totalmente só... Mais recentemente, sim, tem a dra. May – ela vem pelo menos duas vezes por semana. Falando nisso, ela vem amanhã e vai ter uma surpresa, desconfio, uma desagradável surpresa. Preciso me lembrar de deixar a porta destrancada para ela...
As mulheres deA chuva antes de cair estão longe da realização plena, que parece mesmo não existir, e não apenas no livro de Coe. Beatrix e a própria Rosamond se saem relativamente bem no trabalho, prêmio de consolação para duas vidas devastadas por memórias de perdas, paixões erradas, amores fugazes, violência e abandono em família. Ruth é talentosa e realizada no trabalho, mas vive quase uma vida ao lado de Rosamond sabendo que Rebecca foi o grande amor de sua companheira. Rebecca acaba por constituir família tempos depois daquele verão que passaram juntas com Imogen. Thea jamais se recuperou do que lhe aconteceu e do que ela mesma causou à filha. Imogen vive com outra família, parece feliz, tem um namorado e, praticamente, não conhece a mãe.
The rain before it falls foi publicado em 2007, dez anos depois de The House of sleep (A casa do sono, que saiu no Brasil só em 2007, pela Record). Se não fosse A casa do sono, A chuva antes de cairpoderia inaugurar uma mudança importante na ficção de Jonathan Coe. Nos dois livros, o autor faz uma opção pela investigação de vidas privadas em que seus personagens se movem em uma Inglaterra neutra dentro da narrativa, onde os acontecimentos de fora não interferem dentro dos romances. Em A chuva antes de cair, a escritura de Coe é ainda mais privada (e pequena), concentrada nas memórias de uma tia que fala para a neta da prima e amiga que ela nunca esqueceu e que sempre ajudou sem obter nenhum tipo de reconhecimento. Rosamond era a arquivista dedicada de uma família que não existia mais, que confia à sobrinha Gill, assombrada por memórias do passado, a tarefa de reunir pessoas em torno do seu legado estranho e surpreendente.
Jonathan Coe, é bom lembrar, é o autor de O legado da família Winshaw (What a Carve Up!, 94) e dos livros gêmeos Bem-vindo ao clube (The Rotters' Club, 2001) e O círculo fechado (The Closed Circle, 2004), que traçam painéis políticos e sociais da Inglaterra dos anos 70, 80 e 90, por onde se movem os seus personagens, muito diferentes de A chuva antes de cair.
O legado da família Winshaw fez uma anatomia do thatcherismo influente e corrupto disfarçado nas tramas de uma família decadente. Bem-vindo ao clube voltou aos anos 70 para falar das promessas não satisfeitas do trabalhismo inglês, greves, demissões, passeatas, vida dura, falta de emprego, ataques à bomba do IRA e de adolescentes que estavam tentando se encontrar, resolver problemas em família e se livrar de todos eles com alguma consciência. O círculo fechado trouxe de volta os protagonistas de Bem-vindo ao clube nos anos 90, quando quase tudo na Inglaterra não apresentava novidades e indicava as mesmas vidas normais, monótonas e pequenas de A casa do sono e de A chuva antes de cair.
Jonathan Coe nasceu em 61, em Birmingham, e como todos os melhores escritores da sua geração, tenta explicar uma Inglaterra imaginária ou se prende ao país que tem nas histórias familiares e nos painéis sociais a sua verdadeira grandeza. Coe declarou em várias entrevistas que A chuva antes de cair foi influenciado pelas conversas que mantém constantemente com os seus pais para resgatar histórias em família. Foi a mesma coisa que tia Rosamond deixou para Imogen e a sobrinha Gill. Por que Imogen ?
Os dois cachorros, a vida de Imogen, a carta de Thea no final do livro, a poesia do título e todo o resto que se encaixa genialmente em A chuva antes de cair, só lendo o livro. Vale qualquer coisa.
Uma mulher de 73 anos vai morrer em um lugarejo perto de Birmingham. Sozinha, tem ao seu lado um microfone, um gravador antigo, um toca-discos, uma garrafa de malte escocês, centenas de fotografias e um frasco de Diazepan. Grava quatro fitas-cassete de 90 minutos, separa 20 fotos, deixa instruções sobre a sua herança, ouve música, bebe, provavelmente toma o que restava do frasco e espera placidamente a morte chegar. Foi encontrada com um disco ainda girando no prato e o botão “gravar” do cassete ligado.
Rosamond gravou, cronologicamente, a história de cada uma das fotos que escolheu. Lugares, personagens, detalhes, o que veio antes e depois daqueles instantâneos congelados, mas vívidos em sua memória, são minuciosamente esmiuçados nos quatro cassetes. O último, o de número quatro, estava no gravador quando ela se foi. Era a única identificação nas fitas, números de um a quatro, sem nenhuma orientação sobre o conteúdo de cada uma delas.
Eu espero, Imogen, que seja você a pessoa a escutar estas palavras. Temo não poder ter certeza disso, porque você parece ter desaparecido.
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Há algo mais que devo a você: algo muito mais precioso; algo que, na minha opinião, não tem preço, no mais literal sentido dessa expressão. O que eu quero que você tenha, Imogen, acima de tudo, é uma noção da sua própria história; uma noção sobre de onde você veio, e sobre as forças que fizeram você existir.
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São centenas de fotografias que eu poderia escolher, Imogen. Centenas e centenas, de volta ao tempo da Guerra e além.
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No fim, fiquei com 20. Vinte parece um número de que posso dar conta, de alguma forma. Vinte cenas da minha vida, basicamente, porque acho que é isso o que me proponho a lhe contar: a história da minha vida – até o momento em que você a deixou, tão pouco tempo depois de ter aparecido nela pela primeira vez.
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Imogen é a filha de Thea, neta de Beatrix – a prima e melhor amiga de Rosamond. Era uma adolescente quando as fitas foram gravadas, cega desde os três anos, vítima de mais uma tragédia em família. Imogen morou com Rosamond e Rebecca quando tinha de cinco para seis anos – os melhores anos da vida de Rosamond, com a única mulher que amou de verdade.
A garota não chegou a ouvir as fitas, ver as fotos ou receber a sua parte na herança. É outra herdeira de Rosamond, a sobrinha Gill, que volta a Shropshire para entender o que tinha acontecido com a tia e descobre, entre outras coisas, que as fitas e as fotos deveriam ser entregues por ela para Imogen, que ninguém sabia onde encontrar.
As fitas deixadas pela tia antes de morrer, ouvidas por Gill e suas filhas Catharine e Elizabeth, são a matéria ficcional do novo livro de Jonathan Coe, A chuva antes de cair (Record, 2009), tradução de Christian Schwartz. – que começou acertando na sutil transposição do título original, The rain before it falls. É mais um grande livro de Coe, emocionante, virtuoso na utilização dos recursos literários e brilhante como sempre. O que se lê é a “voz de Rosamond” antes de morrer, ouvida nas fitas por Gill e suas filhas, para uma menina que ficou cega. Coe cria e reconstitui cada uma das fotografias e deixa que a memória de sua narradora faça o resto.
Simonal continuou gravando até 98, dois anos antes de morrer. Jóia, Jóia, de 71, ainda é um bom disco, com mais soul, funk e jazz como Na galha do cajueiro. Mas não era a mesma coisa. Simonal tinha perdido o viço da Pilantragem, a visão do intérprete inovador, o faro para descobrir novos compositores e, principalmente, os músicos e maestros que colocavam em prática uma música nova que só ele era capaz de cantar.
Ruy Castro contou em Chega de Saudade que, quando surgiu no Beco das Garrafas, Simonal provocou uma sensação que é hoje indescritível e talvez inacreditável. Ele definiu o cantor como o máximo para seu tempo: grande voz, um senso de divisão igual ao dos melhores cantores americanos e uma capacidade de fazer gato e sapato do ritmo, sem se afastar da melodia ou sem apelar para os scats fáceis.
Para o amigo César Camargo Mariano, Simonal tinha um talento singular. Trabalhar com ele foi uma grande escola para todos nós. Fazia uma música pop, de boa penetração em todas as camadas sociais, leve, alegre e de uma qualidade absurda. O disco tinha o mesmo cuidado que era passado para o palco. Simonal sempre soube muito bem o que queria fazer e tinha um tino artístico e profissional muito forte.
A Wax Poetics, uma das mais importantes e prestigiadas publicações independentes de música e comportamento nos Estados Unidos, lançou esse ano o seu segundo livro: Wax Poetics Anthology Volume 2. Trata-se de uma compilação revisada e atualizada de suas principais reportagens. Dois brasileiros estão presentes: Eumir Deodato e Wilson Simonal, ao lado de capítulos dedicados ao hip hop, a Joe Zawinul e Sun Ra, entre outros. Simonal é apresentado aos americanos em The saga of Wilson Simonal, com detalhes sobre sua vida, discografia e sua importância musical.
Discografia disponível
Enquanto não aparecem os relançamentos prometidos para esse segundo semestre de parte da discografia de Simonal remasterizada, é possível encontrar por aí antologias que dão uma boa idéia do trabalho do cantor.
- WILSON SIMONAL – CD duplo da EMI da Série Meus Momentos (1999)
Vai de Tem algo Mais (63) até Simona e Jóia, de 70 e 71, respectivamente. Passa por A nova dimensão do samba e S’imbora, faz um bom retrospecto da Pilantragem, a partir de Vou deixar cair, e pelas melhores músicas da série Alegria! Alegria!. Obrigatório como aperitivo para entender a música , o talento e a importância de Simonal.
- A ARTE DE WILSON SIMONAL – CD simples da Universal da Série A Arte De (2005)
Tem um encarte com todas as letras e pega músicas de discos menos conhecidos de Simonal, que vieram depois da sua ruína em 71, além de clássicos presentes no título anterior. São sete músicas, metade do disco, de Se dependesse de mim..., de 72: Noves fora, Quarto de Tereza, Ninguém tasca, Expresso 2222, Feitio de oração, Irmãos do sol e a faixa-título. Seis faixas de Olhaí, balândro... É bufo no birrolho grinza!, mais da metade do disco, de 73: Andorinha preta, Dingue li bangue, Sabiá-laranja, Quem mandou (pé na estrada), Rio Grande Sul na festa do Preto Forro e Nega tijucana. Três músicas e um medley de samba de pagode, de 74, provavelmente de compactos: Cuidado com o bulldog (mais uma vez Jorge Ben), A pesquisa, Na subida do morro e o medley com Pagode do exorcista/Parece que bebe e Senta aí, vovó. O CD ainda tem uma gravação rara de Simonal cantando com Sandra de Sá, ao vivo, Lobo bobo, em 1997. Vale o investimento, até porque esses CDs que fazem parte de séries populares costumam ser muito baratos.
- WILSON SIMONAL – CD simples da Série da EMI 2em1 – 2 LPs em 1 CD (2003)
Ouro puro: dois LPs originais de Simonal reunidos em um CD. Dois discos da Série Alegria! Alegria!: o Vol. 2 – Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga, e o Vol. 4 – Homenagem à graça, à beleza, ao charme e ao veneno da mulher brasileira. Sá Marina, Cai Cai, Manias, Recruta biruta, Zazueira, Não tenho lágrimas, Vamos S’imbora, Maquilagem, Evie, Canção da criança, Eu fui no Tororó, Que maravilha, País tropical... O grande Simona no auge.
- WILSON SIMONAL CANTA TOM & CHICO – EMI (2006)
Disco irregular e oportunista. Simonal, como foi dito aqui, nunca foi um bossanovista clássico, embora tivesse aparecido no começo dos 60 - quando o gênero era hegemônico na roda da alta cultura da música brasileira. Também não foi um cantor típico de MPB, ainda que tivesse perseguido os dois gêneros à sua maneira. Simonal sempre foi Simonal, o que pode ser comprovado pelas gravações de Se todos fossem iguais a você, Só tinha que ser com você e, principalmente, Cordão – esse sim o verdadeiro Simonal.
Na internet, tem dezenas de sites falando de Simonal e oferecendo seus discos para download. O melhor deles é o gringo Loronix, mas têm outros. É só procurar.
Quero a rosa e não a roseira
(Isso é o que vale para mim)
Quero o tombo e não a rasteira
(Mas não depende de mim)
Quero a paz das catedrais
Em nossos dias normais
Quero de você o eterno cais
(Quisera, quisera, quisera)
Quero a luz dos castiçais
Nas nossas noites normais
Quero brisas e nunca vendavais
(Quem dera, quem dera)
(Se dependesse de mim... – Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza)
Quem dera, Simonal. A vida pode ser bela mas não é justa. Quem dera...
A importância da Pilantragem e de Simonal para a música do Brasil
Simonal viu na Pilantragem a chance de ampliar sua visão musical cada vez mais eclética, sem as amarras de estilos pré-definidos como Bossa nova, samba ou MPB. Mudou o visual e o figurino e assumiu a imagem do soulstar norte-americano, à maneira de Al Green e Sly Stone. Segundo Denilson Monteiro, autor de Dez! Nota Dez! Eu sou Carlos Imperial, a biografia do mentor de Simonal, a Pilantragem era um som com pitadas de Burt Bacharach, Herb Albert, Chris Montez, o lá-lá-lá do porto-riquenho Trini Lopez, jazz, rock, samba, xaxado, baião, e o mais importante: descontração.
A Pilantragem tentou incluir, misturar, sintonizar e equalizar a emergente Música Popular Brasileira com as conquistas recentes da música pop da época: soul, o som da Motown, funk, jazz-soul, o rock depois da Invasão britânica, psicodelia e easy listening (por meio dos arranjos de Bacharach e Herb Albert. Ao mesmo tempo, a Pilantragem atualizava a Jovem Guarda e a Tropicália, trazia o samba de gafieira, rearranjava canções-de-roda, incrementava os metais e criava a primeira manifestação de música pop negra no Brasil, junto com Jorge Ben e antes de Tim Maia.
Depois do precursor Vou deixar cair e de um disco ao vivo (67), Simonal começa a mandar na música brasileira com a inédita fusão musical promovida pelaPilantragem, representada pelos quatro LPs da série Alegria! Alegria!. No primeiro disco, Alegria, Alegria!!!, de 67, Simonal transforma a ingênua Escravos de Jó em puro balanço. Vesti Azul, de Nonato Buzar ainda é original e desconcertante ouvida hoje; nos 60, era um luxo para as massas que Simonal sempre quis atingir com música de qualidade. A sensacional Nem vem que não tem, de Imperial, é música pop na fachada e soul-jazz no fundo, com guitarra que lembra Wes Montgomery e Grant Green.
O maestro Lyrio Panicali agora era o diretor-musical. As orquestrações e a regência foram entregues a César Camargo Mariano do Som Três, que tinha acompanhado Simonal no Beco e foi um dos grandes responsáveis pelo som da Pilantragem. O Som Três, além de César no piano, tinha Toninho Pinheiro na bateria e vocais de apoio, Sabá no baixo e vocais, que participa de Ninguém sabe o duro que dei, Juarez Araújo no sax tenor e Maurilio da Silva Santos no trumpete. Os também maestros Erlon Chaves e Antônio Adolfo, além de Imperial, Nonato Buzar e o Som 3, formavam o núcleo da Pilantragem que orbitava em torno de Simonal.
Alegria! Alegria! – Vol. 2 ou Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga é de 68. O subtítulo meio gangsta é auto-referente e mais uma provocação de Simonal. O disco abre com a épica (e triste) Sá Marina, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, um dos maiores sucessos de Simonal e uma de suas melhores gravações, com destaque para a frase de piano criada por César. A segunda faixa é a fabulosa Cai Cai (Roberto Martins), uma gafieira pop com metais e órgão elétrico – outro arranjo revolucionário de Mariano. Zazueira, de Jorge Ben, também inova nos metais, como Vamos S’imbora, que a partir do jazz-soul antecipa em mais de 20 anos o que seria o acid jazz dos anos 90.
O volume 3 de Alegria! Alegria! ou Cada um tem o disco que merece, de 69, é o mais irregular da série, com destaque para a colagem pós-industrial e anti-consumista de Mustang Cor de Sangue, dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle. No mesmo ano, é lançado Alegria! Alegria! Vol. 4 ou Homenagem à graça, à beleza, ao charme e ao veneno da mulher brasileira. A primeira faixa que chama a atenção é Evie, de Jimmy Cobb, que não tem nada a ver com a Pilantragem, mas lembra o crooner perfeito que Simonal sempre foi, comprovado em Ninguém sabe o duro que dei quando ele canta com Sarah Vaughan. Eu fui no Tororó é antológica porque o cantor leva para o estúdio os famosos ensaios que fazia com as platéias por onde se apresentava, separando as vozes e as frases antes de reger o coro formado pela massa que o admirava e se rendia à sua música e ao seu carisma.
Jorge Ben, mesmo não fazendo parte (formalmente) da Pilantragem, também estava renovando a música pop negra no Brasil e comparece com duas músicas no último disco da série Alegria! Alegria!.O LP marca e encerra a grande fase do Movimento pensado por Imperial e consolidado por Simonal, César Camargo Mariano e seus músicos, Erlon Chaves, Nonato Buzar, Tibério Gaspar e Antônio Adolfo, entre outros. Simonal grava no Vol. 4Que Maravilha, de Ben e Toquinho, e País Tropical. Nesta faixa, repete a canção subtraindo as últimas sílabas da primeira e da segunda parte da música, sem perder a divisão do tempo, virtuosismo que foi adotado pelo próprio Jorge Ben e por todo mundo que regravou País tropical depois de Simonal.
O ensaio encenado pelo cantor na gravação de Eu fui no Tororó foi colocado em prática, mais uma vez, no encerramento do IV Festival Internacional da Canção, ao vivo, no Maracanãzinho, antes do show de Sérgio Mendes, programado para fechar o evento. Estima-se que naquela noite Simonal tenha regido um coro de 15 a 40 mil pessoas – os números são contraditórios. O que se sabe é que o grande Sérgio Mendes ficou nervoso e com medo de encarar o público depois da apoteose de Simonal.
Vou deixar cair, de 66, muda tudo na carreira do cantor. A primeira faixa é Vento de maio, dos pré-tropicalistas Gilberto Gil e Torquato Neto. Meu limão, meu limoeiro, sucesso instantâneo de Simonal, vem em seguida e depois Carango, de Nonato Buzar (outro compositor que ele ajudou a lançar) e Carlos Imperial. O título do documentário sobre Simonal saiu do refrão de Carango: ninguém sabe o duro que dei, pra ter fon-fon trabalhei, trabalhei...A Bossa nova, que Simonal nunca abandonou de vez, reaparece na interpretação memorável de Minha namorada, de Carlos Lyra e Vinícius. No mesmo disco ainda lança Cassiano, que faria história na música soul brasileira, em Sem você eu não vivo, e compõe com José Guimarães o Samba do Mug, boneco que virou febre entre crianças e adolescentes nos anos 60. Simonal fazia merchandising antes mesmo de ele existir formalmente no Brasil.
Outra faixa obrigatória de Vou deixar cair e da nova fase de Simonal é Mamãe passou açúcar em mim, de Carlos Imperial, que lembrava vagamente Juca bobão do disco anterior um ano antes. Simonal entrava com tudo no movimento hippie que o seu mentor começava a divulgar no Brasil, mas que ainda precisava de uma costura estética, referências e de uma música que lhe desse sentido. Imperial veio com samba jovem. Simonal gostou do conceito, mas não do nome. Nonato Buzar sugeriu bossa brasileira, que Simonal também não gostou porque achava formal demais. O cantor encarnava aquela festa com esperteza, suingue, malandragem e pilantragem – o nome que ele queria. Imperial concordou e Nonato Buzar foi voto vencido, mas profetizou que a pilantragemainda seria usada de forma depreciativa e não estava totalmente errado.
Em Ninguém sabe o duro que dei a maioria dos depoimentos reprova o Movimento. O jornalista, compositor, crítico musical e escritor Sérgio Cabral é enfático: a Pilantragem não acrescentou nada à música brasileira... Simonal não precisava daquilo... Simonal era maior do que aquilo...Erro grosseiro de Cabral: Simonal não era maior ou menor do que a Pilantragem – ele era a própria Pilantragem.
Simonal cantou muito e de tudo. Cantou bem em inglês, francês, italiano e espanhol, mesmo falando só português - segundo ele uma das línguas mais difíceis do mundo para cantar. Não é o que parece quando se ouve a discografia clássica de Simonal, que vai de 1963 a 1972 e soma 10 discos, alguns indispensáveis para entender o que se fazia no Brasil dos 60 e início dos 70.
O primeiro LP é Wilson Simonal tem algo mais, de 63, difuso como todos os discos do cantor, onde convivem músicas de gêneros diversos. O que para a maioria dos intérpretes poderia significar falta de unidade, desorientação e ausência de uma personalidade mais clara, nunca foi problema para Simonal. Ele unificava suas escolhas em torno da voz, do estilo peculiar de cantar, que privilegiava a divisão, o ritmo e os arranjos. Simonal tinha um ouvido preparado e, mesmo sem ler música, orientava seus maestros para que o arranjo obedecesse a sua interpretação e não o contrário. Além do mais, sempre se cercou de bons músicos, regentes e orquestradores, aptos a criar e a acompanhar sua voz e estilo de cantar inteiramente novos dentro da música brasileira do período. Quase todos os discos da primeira fase de Simonal, inventários do samba, da bossa nova e dos novos compositores que não paravam de aparecer, têm nos arranjos o maestro Lyrio Panicali e o estreante Eumir Deodato.
Simonal tinha mesmo algo mais. Balanço Zona Sul, de Tito Madi, é o primeiro clássico do cantor. A nova dimensão do samba, de 64, vem com Nanã, do maestro Moacir Santos, que Simonal lançou um ano antes do autor. Já no segundo LP, Simonal prova porque era mais moderno e ousado do que a Bossa nova. Suas versões para Lobo bobo (Carlos Imperial e Ronaldo Bôscoli); Só saudade (Tom Jobim e Newton Mendonça); Rapaz de bem (Johnny Alf) e Inútil paisagem (Tom e Aloysio de Oliveira) são definitivas e transformadoras. O disco termina com um medley que junta Consolação (Baden Powell e Vinícius de Morais), Samba do avião (Tom Jobim), Ela é carioca e, naturalmente, Garota de Ipanema, as duas de Tom e Vinícius.
Em pouco mais de um ano, Simonal lançaria três discos, o que era raro no Brasil. Em 65, vieram S’Imbora e Wilson Simonal, trabalhos menores que dão sequencia ao que Simonal já estava fazendo, com a inclusão natural de um dos desdobramentos da Bossa nova: a canção de protesto, que estaria na origem do que passou a ser chamado de MPB. Simonal grava em S’ImboraFica mal com Deus, de Geraldo Vandré, Sonho de um carnaval (Chico Buarque) e Samba do carioca, de Carlos Lyra e Vinícius. Não abandona de todo a velha Bossa e os cânones da canção brasileira que sempre gravou, além de novos compositores que trouxe para seus discos como Sílvio César, Geraldo Nunes e Marcos Valle, entre outros. As suas versões para Se todos fossem iguais a você (Tom e Vinícius) e Duas Contas (Garoto) são mais um atestado da capacidade de Simonal para recriar canções e trazê-las para o seu registro único. Wilson Simonal traz mais um medley, de Ary Barroso, Zé Keti (Opinião) e Caymmi (Marina). A música que mais chama a atenção no disco é a modesta faixa 9, Juca bobão (Del Loro), samba-jazz com inflexões de rhythm and blues que lança um novo Simonal e inaugura a segunda fase do cantor, a mais criativa, importante e influente, que faria dele o maior cantor do Brasil.
Entre 61 e 65, da primeira gravação em compacto com Teresinha a Wilson Simonal, Simonal já tinha passado por toda a Bossa nova sem ser o bossanovista típico da zona sul carioca. Fez até uma temporada bem sucedida no Beco das Garrafas, levado por Luis Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli junto com o Som Três do pianista César Camargo Mariano. O Beco, reunião de bares e casas noturnas em Copacabana, era um dos redutos da trepidante noite carioca do final dos 50 e início dos 60, no apogeu da Bossa nova.
Simonal também gravou os melhores compositores brasileiros, de Noel Rosa a Dorival Caymmi. Cantou samba o suficiente para não ser confundido com mais um negro sambista ou cantor de MPB. Antes do lançamento de A nova dimensão do samba, já excursionava com o Bossa Três do pianista Luis Carlos Vinhas pelas Américas do Sul e Central, sempre com enorme sucesso; mas Simonal não era o Simonal.
O verdadeiro Simonal, que cantava calipso, standards da canção norte-americana, swing, samba, bolero, boogaloo e rock and roll no quartel, onde aprendeu a tocar violão, apareceria pelas mãos do seu padrinho musical: Carlos Imperial. Figura lendária da cena musical desde a introdução do rock and roll no Brasil, Imperial estava em todas. Foi compositor, produtor, radialista, jornalista, apresentador de TV, jurado (malvado) de programas de calouros, cineasta, dramaturgo, ator, agitador cultural e vereador pelo Rio de Janeiro. Imperial descobriu e apadrinhou Simonal, Roberto Carlos e Tim Maia; ajudou Elis Regina e Clara Nunes, além de celebridades instantâneas que promoveu como Fábio e Dudu França (alguém se lembra de Grilo na cuca ?).
O intimismo e os limites da bossa nova não combinavam com o jeito expansivo, aberto e preparado para o consumo das massas que Simonal já tinha mostrado nos bailes do exército, no Beco, em discos e excursões no Brasil e no exterior. Simonal estava mais próximo de Imperial do que de João Gilberto, que era o seu oposto.
Simonal é o melhor cantor do Brasil. Tenho dito isso há 20 anos e não achei ninguém que tenha concordado comigo. Era desses raros cantores que deixava uma marca em qualquer coisa que cantasse. No 8º Grupo de Artilharia da Costa, no Rio de Janeiro, onde serviu por três anos como datilógrafo, Simonal já animava bailes cantando calipso, rock e standards da canção norte-americana. Era reconhecido da mesma forma entre oficiais e cabos como ele. Sua mãe, empregada doméstica, acreditava que aquele seria o futuro do seu filho: o exército – e não estava errada. No Brasil dos anos 50, um negro, pobre, quase sem instrução, tinha que entrar no serviço público ou jogar futebol para se dar bem e ser respeitado. Simonal foi na terceira via, que sua mãe não queria considerar, mas igualmente promissora para um cara como ele: a música.
Muita gente começa a falar de Simonal outra vez. A justiça tardou, mas não deverá falhar agora. O ótimo documentário Ninguém sabe o duro que dei, de de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, é um começo mais do que auspicioso para seus milhões de fãs aqui e lá fora. O filme também deve contribuir para que as novas gerações conheçam a história e, principalmente, a obra de um gigantesco talento que assombrou o Brasil e o mundo na segunda metade dos 60 e comecinho dos 70. Espera-se, por exemplo, que os discos de Simonal sejam remasterizados e relançados. As notícias são animadoras. A caixa com todas as músicas que Simonal gravou na Odeon, entre 61 e 71, deve ser relançada. Organizada pelo jornalista Ricardo Alexandre, foi lançada em 2003 pela EMI e sumiu rapidamente das prateleiras; virou item de colecionador, o que comprova a popularidade e a importância de Simonal. Alexandre, autor de “Dias de luta – o rock e o Brasil dos anos 80”, ainda promete para esse ano uma biografia do cantor pela editora Globo, sem título por enquanto. Está para sair também o livro Simonal: Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga (Record), tese de doutorado pela Universidade Federal Fluminense do historiador Gustavo Alonso Ferreira, que mantém o bloghttp://cadaumtemolivroquemerece.blogspot.com
As homenagens são justas para quem foi enterrado em vida e amargou quase 30 anos de esquecimento, humilhação e desprezo, ainda que tivesse feito o povo inteiro cantar, como dizia uma de suas músicas mais conhecidas. Simonal cometeu um erro grave ao suspeitar que seu contador, Rafael Viviani, o tivesse levado à falência quando fazia mais de 300 shows por ano no Brasil e no exterior, vendia muitos discos e tinha um dos maiores contratos publicitários da época (com a Shell). Ingênuo, Simonal pediu a dois conhecidos que dessem um corretivo no contador e o serviço foi feito. Um deles era do DOPS, o temido Departamento de Ordem Política e Social, que fazia o serviço sujo durante a ditadura militar. Viviani foi levado para lá e recebido aos costumes, com porrada, choque e tortura. Depois de uma noite apanhando (para dizer o mínimo), o contador não agüentou e confessou o desfalque.
No depoimento que dá em Ninguém sabe o duro que dei, Rafael Viviani não isenta Simonal de culpa, alegando que o cantor esteve no DOPS na manhã seguinte ao seqüestro, viu o estado em que ele estava e não fez nada. Solto, Viviani foi à delegacia e registrou queixa contra o ex-patrão por extorsão, seqüestro e tortura. Isso em 71, no governo Médici, uma das fases mais sombrias (e violentas) do regime militar. Instaurado inquérito, o policial Mário Borges depõe em sua própria defesa e justifica o uso das dependências do DOPS mentindo em juízo para se safar. Segundo o depoimento, ele pensou que o contador fosse mais um terrorista perigoso denunciado por Simonal, que costumava colaborar com a repressão como informante de longa data. Para piorar, o cantor, na base da valentia e no melhor estilo “xá comigo” que era uma de suas características, disse que se gabava de sua relação com os home, mas jurava inocência. No seu depoimento, Simonal alegava estar sofrendo ameaças anônimas e que suspeitava do ex-contador, por isso recorreu a seus conhecidos no DOPS. Não funcionou, a história se espalhou e o escândalo foi inevitável.
Naturalmente, por envolver um dos artistas mais populares do Brasil e um contador que tinha vários de seus clientes no meio artístico, o caso ganhou repercussão nacional. Da noite para o dia, começaram os boatos de que a ligação do cantor com o DOPS era mais profunda do que se imaginava. Simonal se tornou uma figura malquista. A mídia e seus colegas de profissão passaram a execrá-lo. A edição de 7 de setembro de O Pasquim, nanico que era reduto da esquerda, trazia como destaque “O magnífico e erecto dedo de Simonal, hoje mais famoso do que sua voz”. Além de seqüestro e tortura, era acusado de dedo-duro. Em novembro, o cartunista Henfil, que abominava as canções de Simonal enaltecendo as maravilhas do Brasil e o “charme e o veneno da mulher brasileira”, publica na sua página no Pasquim uma historinha em que o personagem Tamanduá sugere ao cantor o suicídio como única forma de conquistar o aplauso do povo. No mês seguinte, Simonal aparecia no “Cemitério dos mortos-vivos” de Henfil.
Em julho de 69, no quarto número do jornal, Simonal foi o entrevistado do Pasquim. O título (suspeito) da entrevista era Não sou racista. Ao contrário do que acontecia com outros convidados, o cantor não se intimidou com as perguntas de Sérgio Cabral, Paulo de Tarso, Jaguar e Pinheiro Guimarães. Simonal falou do seu sucesso e que se preparou para ele. Cutucou a crítica. Defendeu a Pilantragem. Minimizou a música de cantores e cantoras como Chico Buarque, Caetano Veloso, Nara Leão, Roberto Carlos, Gal Costa, Sérgio Mendes, Noel Rosa, Ary Barroso, Maysa e Jair Rodrigues, entre outros. Falou de suas origens e da vida na favela, bem como das vantagens de ter dinheiro. Esclareceu os boatos sobre uma carreira mais longa fora do Brasil. Enalteceu Dorival Caymmi, Gilberto Gil e Altemar Dutra, um dos maiores cantores brasileiros, por causa da voz, ao lado, é claro, dele mesmo. Deu poucos detalhes sobre sua rotina familiar, mas que aproveitava os poucos momentos de folga para brincar com seus filhos e ir ao cinema. Admitiu que existe racismo no Brasil e que ele não era racista porque era casado com uma loura.Justificou o imenso sucesso que fazia porque se preocupava em fazer uma música que se comunicava com o povo. No meio da entrevista, Pinheiro Guimarães pergunta: E o que você acha que tem de mais bacana: beleza, bossa, voz, idéia ? A resposta de Simonal: Eu tenho muito charme.
Boicotado por colegas, excluído da televisão e do rádio, sem fazer shows, vendo seus discos sendo retirados de catálogo, Simonal estava acabado. Foi julgado e preso em 72, condenado a cinco anos e quatro meses de prisão, cumpridos em liberdade. Não houve mais volta. Nas décadas seguintes, continuava tentando provar sua inocência e até conseguiu um documento da Secretaria de Direitos Humanos do governo FHC afirmando que ele jamais havia colaborado com os órgãos da repressão. O filme mostra cenas do cantor em programas de televisão (Paulo Giovanni, Hebe), magro, abatido e sem forças, com os documentos na mão. Tarde demais. Simonal estava relegado ao ostracismo e à morte, o que acabou acontecendo em 2000, por cirrose hepática. Triste, amargurado, caluniado e esquecido, o maior cantor do Brasil morreu de tanto beber.
É claro que há várias passagens mal contadas nessa história, que nem o documentário consegue elucidar, até porque não toca em determinados assuntos. De quanto foi o suposto desfalque do contador, se é que ele ocorreu ? Se não, onde foi parar o dinheiro de Simonal ? Ele pediu mesmo que Viviani fosse levado ao DOPS ? É fato que ele era um bon vivant, tinha carros importados, boas roupas, bebia os melhores uísques, estava sempre acompanhado de belas mulheres, tinha a Simonal Produções, quase 20 funcionários, pagava impostos, multas etc - mas trabalhava muito e o dinheiro não parava de entrar. Por que o contrato com a Shell foi rescindido quando Simonal estava no auge e antes dos acontecimentos que precipitaram a sua ruína ? Nelson Motta dá uma pista no filme, mas não esclarece. Por que ninguém partiu em defesa de Simonal ? Paulo Moura, constrangido, dá um depoimento no filme, talvez falando por tantos outros músicos que trabalharam com Simonal. Sabá, o seu baixista no Som Três, diz que o cantor nunca comentou sobre o assunto com seus músicos. Por que o depoimento do inspetor Vasconcelos, superior direto do policial Mário Borges, desmentindo a sua declaração mentirosa e infeliz também não ganhou as páginas dos jornais ? A peça consta no inquérito criminal instaurado pelo promotor público Pedro Fontoura na 23ª Vara Criminal do Rio de Janeiro (então Guanabara), em 13 de outubro de 1972. Por que os depoimentos nervosos de Sérgio Cabral e Jaguar, a turma do Pasquim, são os mais duvidosos em Ninguém sabe o duro que dei ? Por que o Ziraldo, que também fazia parte do jornal, tenta limpar a sua barra e a do Pasquim ? Por que todos reconhecem, em termos, o talento de Simonal, menos o Jaguar, que na edição do filme apareceu como um cínico escroto ? Por que fizeram isso com Simonal ? Foi racismo e inveja, além dos delitos que Simonal cometeu e pelos quais foi julgado e condenado ? Simonal pagou a sua pena e não foi considerado um cidadão melhor. Não foi anistiado e permaneceu no limbo quando até torturadores eram recebidos com festa nos aeroportos da abertura promovida nos últimos anos da ditadura militar. Ninguém sabe duro que dei é uma apologia a Simonal que comprova a sua inocência ?
Penso que sim, e que já estava na hora de alguém partir em defesa de Simonal, que nunca fez nada, a não ser cometer o erro de pensar que podia tudo, como muitos artistas que estão no auge. Simonal não foi delator e não era um adesista como acreditava o Pasquim em sua insidiosa campanha contra o cantor. O grande mérito de Ninguém sabe o duro que dei é contrapor o sucesso e o fim trágico, injusto e melancólico de Simonal, com o convite para conhecê-lo melhor, sem censura e preconceito.
No próximo post, o que interessa: a música de Simonal.
Na Antiguidade clássica, a música era uma das belas artes, superior às artes aplicadas e decorativas, consideradas menores e inferiores. A distinção, segundo os gregos, se deve ao fato de que a música trabalha com um dos sentidos privilegiados, a audição. O outro era a visão. Junto com a Música estavam o Teatro, a Pintura, a Escultura, a Poesia e a Arquitetura - que combina beleza e utilidade. Outro fator de diferenciação das belas artes era o caráter não-utilitário, dissociado dos ofícios manuais e do artesanato.
O filósofo e crítico italiano Giambattista Vico (1668-1744) tentava entender essa barafunda lá no século XVII, depois do Renascimento e quase 800 anos depois dos gregos, mas ainda muito próximo da herança clássica. Vico ampliou, classificou e deu uma hierarquia à criação artística com a idéia das artes nobres, perfeitas e memoriais (que guardam a memória das coisas e acontecimentos), noções típicas do século XVI; além de reconhecer as artes pictóricas e as artes agradáveis, que ganharam força já no século XVIII.
Naturalmente, Vico e os gregos foram superados. A música se tornou a mais popular entre as belas artes, conceito que ajudou a destruir junto com a Bauhaus, a Fotografia, o Cinema, as vanguardas artísticas da passagem para o século XX, as novas objetividades e a reprodutibilidade técnica. Ainda assim, manteve praticamente intacto seu mistério e encantamento como a mais etérea e imaterial das artes.
Há quem duvide de algumas conquistas da modernidade, sempre sujeita a recaídas neoclássicas, mas o desenvolvimento da própria música tratou de acomodar o ânimo dos puristas empedernidos que não vão além dos exageros (e da beleza) do Romantismo.
A música ambiente é o melhor exemplo de como a noção de belas artes foi definitivamente sepultada, principalmente a partir do período Barroco. Bach tocava órgão em missas. Mozart e Haydn animavam festas na corte tocando piano. Gustav Mahler, um dos últimos românticos, trabalhou como regente em teatros provincianos para sobreviver, tocando o que o público queria ouvir antes de dirigir o Metropolitan Opera House em Nova Iorque. Forçando a mão, esses verdadeiros criadores ocupavam parte do seu tempo fazendo música ambiente.
As biografias dos maiores nomes do jazz, do rock, da música popular, atestam o ritual de passagem pela música ambiente, quando tocavam em qualquer lugar para quase ninguém ouvir. A maioria das bandas novas, independentes, não consegue escapar do périplo árduo de tocar na noite covers e versões enquanto o público se diverte e enche a cara.
O fim das belas artes
A música ambiente subverte um a um todos os preceitos das belas artes. Ela é, por definição, utilitária – e, modernamente, uma das artes agradáveis previstas por Vico. Na medida em que não quer chamar atenção para si, dispensa conjecturas em torno de sua materialidade e inacessibilidade, bem como o papel dos sentidos em sua apreensão. Ao que parece, na música ambiente não há mistério e encantamento que possam prender a atenção do ouvinte. Não há sentidos privilegiados na música ambiente. Ela é quente antes de Marshall McLuhan, e fria depois dele e de Brian Eno, que consagrou o termo ambient music na década de 70.
Brian Eno em 1988 - Foto de Karen Kuehn
Brian Eno baseava o seu conceito na empresa norte-americana Muzak Inc., que desde 1934, durante os piores anos da Grande Depressão, oferecia música leve, instrumental, descompromissada, a indústrias, lojas e consumidores para aumentar a produtividade e o consumo em tempos de crise. Música de elevador, como também foi chamada, depois injustamente associada ao easy listening dos anos 50 e 60. Gênero musical bem definido e estratégia radiofônica ao mesmo tempo, o easy listening cobre um vasto horizonte que vai dos maestros James Last e Ray Conniff à música de excelente qualidade produzida no Brill Building, de onde saíram Burt Bacharach, Neil Sedaka, o casal Gerry Goffin e Carole King, além de outras relíquias pop como as girls groups – que continuam a influenciar o pop que se faz hoje. Sobre o Edifício Brill e Burt Bacharach já escrevi aqui no blog.
A Muzak Inc., é claro, prosperou e hoje é um dos gigantes da produção multimídia para empresas, ainda que esteja mal das pernas. Atua em todos os canais analógicos e digitais para fornecer conteúdo no mundo inteiro em todas as plataformas possíveis e imagináveis, fornecendo dados, sons, imagens e informação em alta velocidade.
Brian Eno tocou no início do legendário Roxy Music, a formação mais original do glam, do pop e do art rock do início dos 70, fez dezenas de discos sozinho ou com parceiros como Robert Fripp (King Crimson), David Byrne (Talking Heads), Harold Budd e Daniel Lanois, entre outros. O trabalho cuidadoso, criativo e atmosférico de Brain Eno o levou à produção de uma série de bandas e artistas a partir dos anos 80. É um dos produtores do U2 - e voltou a trabalhar com a banda no recente No Line on the Horizon. A discografia de Brian Eno dá uma idéia do seu conceito de música ambiente: Music for Films e Ambient 1/Music for Airports, de 79 (em pleno pós punk); Ambient 2 e Ambient 3, de 80; Empty Landscapes, de 81; além das continuações de Música para filmes e outras paisagens sonoras.
A música ambiente proposta por Brian Eno é inovadora na teoria e na prática. Na teoria quando o músico e produtor foi além da Muzak Inc. e fez música não necessariamente utilitária, apesar dos títulos de seus principais discos; ironia tipicamente inglesa. Na prática quando fez música que só aparentemente não era para ser ouvida. Brian Eno e sua ambient music privilegiavam a audição, um dos sentidos valorizados pelos gregos. Conceitualmente, mesmo entre todas as tendências modernizantes do rock e do pop dos anos 70, Eno pode ser considerado um neoclássico.
Music for Airports está em todas as publicações confiáveis nas listas dos melhores discos de todos os tempos, como a quarta e ótima edição, revista e ampliada, da The Mojo Collection – The Ultimate Music Companion (2007), atualização da Mojo 1000 The Ultimate CD Buyers Guide To Rock, Pop, Soul, Jazz, Soundtracks & More do início dos anos 2000. Music for Airports aparece também como referência na Rolling Stone, Uncut, Word, Paste, Blender e nas brasileiras Pop e Bizz, sem contar a louvação em sites e blogs de música.
A partir de Brian Eno, apareceram diversos subgêneros ligados ao conceito de ambient music, quase todos ligados à cena eletrônica dos 80 para cá: Ambient dub, Organic ambient music, Nature ambient music, Dark ambient, Ambient techno, Ambient house, Ambient industrial e Space music. Isso tudo ligado a uma nova percepção e recepção da música, sensorial e aberta a novos ambientes e sentidos, deslocados entre o movimento e a completa inação.
Música ambiente, depois dos modernos e novos modernos (ou neoclássicos como Brian Eno) deve ser música que não atiça os sentidos ? Tem que ser música de paisagem e irrelevante ? Deve ser música para escolher batatas no supermercado ?
Não vou para o Twitter. Isso não é definitivo, como nada é definitivo. Por enquanto, prefiro esperar e ver a explosão desse troço, que explodiu mas não fez a minha cabeça.
Sou um aventureiro na rede e sempre em perigo por ser lento demais – um dinossauro slow blogger em pleno sucesso dos twitters.
Continuo na guerrilha e superado, com um blog que não funciona mas que ainda serve (espero) para indicar o que é divertido, educativo e inteligente na rede. Acessem: http://www.sepreserva.blogspot.com
As meninas são inteligentes, tiveram uma grande idéia e são divertidas.
Houve um tempo, e isso durou anos, que não saía de casa sem um disco, cassete ou CD (dependendo da época) de Burt Bacharach. Sempre achei que era a melhor música para esquentar um encontro com estilo, uma reunião de amigos, um jantar chato ou uma boa festa. E sempre funcionou muito bem. Quando tudo começava a acontecer e as pessoas já estavam devidamente ambientadas, apresentadas, alegres e descontraídas, quando nem se lembravam mais da música, vinham as perguntas: o que é que estava tocando ? quem é esse cara ? que música é essa ? Genial. Muito bom. Perfeito. Que delícia. Quem ? A resposta era ensaiada, rápida e apaixonada: Burt Bacharach, segundos antes de outra música começar - jazz, rock, dance, reggae; flash back; disco; punk; valsa; anos 80 ou eletrônica. A resposta era sempre a mesma: Burt Bacharach. Todo mundo gostava do maestro, mesmo sem conhecê-lo. Tinha pelo menos uma música que alguém conhecia, quando ainda estavam sãos e sóbrios. Isso é música pop.
O maestro, que também canta em alguns de seus discos, como no clássico Make it easy on yourself, de 1969, era quase uma unanimidade, e não a burra de Nelson Rodrigues. O clichê é previsível e abominável, mas não no caso de Burt Bacharach. Basicamente, sempre foi um homem da indústria, mas usou a sua formação em arranjo, composição e regência, o conhecimento pleno da orquestra e do estúdio para fazer a sua música. Não estava, necessariamente, preocupado em fazer sucesso, queria criar, entreter e impor a sua marca.
Burt Bacharach criou uma assinatura musical e um estilo mimético de fazer música. Sua obra é só aparentemente fácil e simples. Ouvindo o maestro e olhando com atenção algumas de suas partituras, percebe-se o uso constante de progressões harmônicas sofisticadas sobre acordes pouco usuais na música pop, frases irregulares e modulações freqüentes - a bitonalidade que aprendeu com Milhaud. Já no início, percebe-se o famoso som de Bacharach, distinto pelo uso das cordas da orquestra, a percussão, os vocais femininos e, é claro, o flugelhorn, talvez sua marca mais característica. Tudo isso, poderia levá-lo a se estabelecer comodamente numa das salas do Brill Building, nas paradas de sucesso, na Broadway e no cinema fazendo música pop de qualidade.
A incrível personalidade musical do maestro está eternizada em vários momentos antológicos no cinema: as trilhas de What's New Pussycat ?, Alfie, Casino Royale, Butch Cassidy and the Sundance Kid, Lost Horizon ou Arthur, um milionário sedutor. Impossível esquecer B.J.Thomas cantando Raindrops keep fallin' on my head na cena da bicicleta em Butch Cassidy. E Dusty Springfield e Look of love em Cassino Royale, a multidão cantando Living together, growing together em pleno Xangrilá em Horizonte Perdido, ou Cillia Black em Alfie e Tom Jones em What’s new pussycat.
Johnny Mathis, Herb Alpert e Perry Como, entre tantos outros, gravaram a boa música pop escrita por Burt Bacharach e Hal David. Mas a influência da dupla se estende ao rock sessentista, ao soul, passa pelo britpop e chega até os dias de hoje. A onda atual do pop retrô do She & Him, do magnífico Brent Cash,de Adelle ou The Pipettes deve tudo a Bacharach e David. O excelente projeto paralelo (e retrô) de Alex Turner (Arctic Monkeys), The Last Shadow Puppets, regravou magistralmente My little red book; que já tinha uma versão dos Manfred Mann, de 65. Junto com os Beatles e os Mann, o maestro também participou da invasão britânica. Ao mesmo tempo, era influência confessa da reação americana aos ingleses. Outro gênio, Brian Wilson, cansou de dizer que o som dos Beach Boys foi profundamente influenciado pelo maestro. O brilhante Steely Dan, já na década dos 70, também reconhece a presença de Bacharach na sua peculiar fusão do rock com o jazz.
Assim como o rock, o pop negro sempre gostou de Burt Bacharach, que foi gravado pelos Drifters, as Shirelles, Chuck Jackson, Jerry Butler, Brook Benton, Luther Vandross etc. Sem contar Dionne, Aretha, o 5th Dimension e a antológica versão de Walk on by de Isaac Hayes, uma suíte orquestral com mais de doze minutos presente no indispensável Hot Buttered Soul, de 69.
O Oasis, quem diria, também é fã confesso de Burt Bacharach. Lembre-se que tem um poster do maestro ao lado do sofá em que Noel Gallagher está sentado na capa do primeiro CD da banda, Definitely Maybe, de 94, o disco que fez estourar o brit pop. Gallagher já tocou com ele e reconhece que pegou trechos de This guy’s in love with you para fazer Half the world away, que está em The Masterplan, de 98. Também são dos anos 90 os dois CDs que o maestro fez com Elvis Costello, o irrepreensível Painted From Memory e The Sweetest Punch, além de um disco de McCoy Tyner só com músicas do maestro. Tyner foi o pianista do grande quarteto do saxofonista John Coltrane. Mais recentemente, Burt Bacharach trabalhou com Dr. Dre, um dos maiores produtores do rap americano, que fez parte do N.W.A (Niggaz With Attitude).
É incrível mas não é tudo. Tem Grammies, Oscars e tudo que Burt Bacharach sempre mereceu por entrar macia e educadamente em nossa memória e não sair mais. A propósito, quase ia me esquecendo, tem ainda (They long to be) Close to you, com os Carpenters. Impossível não lembrar.
Bom show a todos que vão e podem pagar o preço do ingresso. Desejem o melhor ao maestro por mim. Termino a minha homenagem ao gênio com outra de suas obras-primas: B.J. Thomas e Raindrops keep fallin' on my head, a canção perfeita.
Quem quiser saber mais sobre Burt Bacharach tem um site não oficial bem bacana, com um fórum de discussões, biografia completíssima, discografia, letras e acordes de algumas de suas músicas e muito mais. Recomendo.
É impossível pensar em alguém como Burt Bacharach. Ele só não aparece na capa paideuma, como diria Pound, de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Puro esquecimento dos rapazes ou do capista, já que os Beatles já haviam gravado uma composição do maestro, Baby it’s you, no seu segundo disco oficial, Please Please Me.
Difícil acreditar que Burt Bacharach, tido como um dos grandes da chamada easy listening, estilo musical que ajudou a difundir caracterizado por arranjos e melodias facilmente assimiláveis, muzak, música de elevador, feita para atingir as paradas radiofônicas, seja comparado a George Gershwin e Irving Berlin, dois dos mais importantes compositores norte-americanos. Berlin compôs White Christmas e Gershwin fez Summertime, para dizer quase nada, dois standards da música pop – invenção tipicamente americana. Bacharach compôs os seus, que se contam às dezenas a partir do final dos anos 50: This guy’s in love with you; The look of love; I’ll never fall in love again; Alfie; Make it easy on yourself; Promises, promises; I say a little prayer; Wives and lovers e tantos outros.
O mesmo compositor, maestro, arranjador e produtor, que penetrava fácil no som ambiente de consultórios, shoppings, elevadores e no diário da mocinha que começava a escolher as músicas para a sua formatura, estudou violoncelo, bateria e piano. É muito para quem nasceu em Kansas City, cidade que se repete em vários estados americanos, mas sempre fundada no interior, no mundo caipira da cidade pequena que sonha com a metrópole. Uma dessas cidades, no Missouri, levou Burt Bacharach direto para a Califórnia, onde estudou composição com Darius Milhaud e Henry Cowell, artífices da vanguarda musical do início do século passado.
Milhaud, que também viveu no Brasil, foi um dos membros do anárquico Les Six, grupo francês que tinha também outro compositor, Erik Satie, e um protótipo do que é hoje um artista multimídia, Jean Cocteau. Milhaud foi um dos primeiros compositores a usar a bitonalidade, além de incorporar o jazz e a música latina (do Brasil inclusive) em suas composições. Saudades do Brasil (1921) e A Criação do mundo (23) são obrigatórias para entender o desenvolvimento da música sinfônica de invenção no século XX. Os encontros de Bacharach com seus primeiros mestres foram decisivos na música do maestro, como se pode ouvir em várias de suas composições. Do you know the way to San Jose, com Dionne Warwick, a sua grande intérprete, é um bom exemplo.
Por mais incoerente que possa parecer, mas de acordo com os estudos e a trajetória do início daquele aspirante caipira a músico e maestro, Burt Bacharach foi o arranjador e condutor de uma excursão de Marlene Dietrich na Europa no final dos 50. Na volta a América, conhece seu grande parceiro, Hal David, compositor e letrista, e juntos tomam conta do famoso Edifício Brill em Nova Iorque, que concentrava grande parte da produção da música popular que atingiu a parada americana dos anos 50 em diante, pelo menos até os 60. No formato Brill Building, em salas diferentes, selos, compositores, editores, arranjadores, maestros, cantores, publicitários, músicos, produtores e agentes tentavam adivinhar qual seria o próximo número 1 da América. Burt Bacharach e Hal David esgotaram e ampliaram o formato, emplacando hits sucessivos e alimentando rádios, a indústria do disco, a Broadway, o cinema e as paradas do mundo todo, especialmente nos anos 60 e 70. Até 2006, Bacharach e seu parceiro mais constante colocaram 70 músicas no Top 40 americano e 52 no Top 40 britânico.
No próximo sábado, Burt Bacharach vai se apresentar em Curitiba, no Teatro Positivo Grande Auditório. Uma pena que um artista tão importante e popular tenha que ser visto com ingressos tão caros: 404 reais a inteira e 204 a meia. Os preços são escorchantes – e intrigam aqueles quatro reais, nunca vi disso.
Parece comissão e não um cálculo real do custo do espetáculo, mas é só a hipótese de um fã indignado. Infelizmente, não estarei lá, por isso resolvi prestar minha homenagem ao maestro aqui no blog.
Por enquanto, fiquem com Aretha Franklin no auge (1970) e uma das grandes músicas do maior maestro da música pop. Daqui a pouco tem mais.
Leitores atentos, viajantes, pacientes, fiéis e partidários do silencioso movimento dos slow bloggers como eu, não desistam.
Fiz hoje o meu perfil na LAST FM e estou goforitzado com mais essa possibilidade das chamadas redes sociais na internet. Escolhi o que quero ouvir, escuto listas dos caras que eu mais gosto, tenho e posso manter contato com pessoas que não conheço e que podem estar em qualquer lugar do mundo, que podem ter um gosto parecido com o meu. Posso escrever sobre as bandas e os caras que, eventualmente, ainda não têm um perfil. Comento sobre determinada música. Se quiser, posso dividir os meus gostos com mais gente, o que é sempre complicado na música. Ainda assim, tenho grandes ou pequenas compatibilidades com pessoas que eu nunca vi ou que conheci hoje, ontem ou que conheço desde sempre.
Não importa. Ouço uma espécie de web rádio em um site de compartilhamento de interesses que eu fiz, com a minha setlist , disponível para você, leitor, amigos, interessados e “ficantes” virtuais. É o máximo. Ouça, sob o meu patrocínio estético, Laura Veirs, Iron & Wine, Prefab Sprout , Rolling Stones, Beach Boys, R.E.M. e o resto da minha lista particular na LAST FM – e também um pouco do que sou, por ora e por enquanto, não é assim nessa maldita rede que nos captura a todos ?
Esteja comigo. Fique comigo. Eu quero e desejo você. Venha para mim, mesmo que a gente nunca se encontre. Até ontem, essa mensagem seria impossível. Hoje, quando tudo é possível, encontrar alguém que compartilhe do meu mesmo gosto musical é relativamente fácil. Nos encontramos nos tags e outros artifícios engenhosos da rede.
Agora, por exemplo, estou ouvindo na LAST FM Lloyd Cole, a Oquestra Baobab e Bugge Wesseltoft. É o único lugar onde isso acontece: um dos melhores cantores-compositores que eu conheço, o melhor do pop africano e o jazz daqui para a frente com Bugge.
Viva você. Viva eu. Viva todos nós. Viva esse novo mundo. Viva a LAST FM. Viva o que ainda não sabemos e temos a chance de aprender. Viva o que temos interesse em aprender. Viva o que a gente ainda tem capacidade de procurar. Viva o Iron & Wine que estou ouvindo agora.
Estou pensando seriamente noTwitter, vocês se importariam e me seguiram, sem abandonar o blog, o Orkut, a Last FMe Salif Keita ? Ou deveria ir para o Facebook, o Hi 5 ou o My Space ?
Por ora, vou ficar onde estou, ao lado de Salif Keita – o que me conforta e me faz pensar lá na frente. E tem Lloyd Cole, que é sempre um conforto necesário.
Mais uma crônica certeira do Nelson Motta, publicada no último dia 27 no seu Sintonia Fina. Para encerrar o longuíssimo mês de março, manter a indignação e a revolta em dia, ainda que não façamos nada. Sigamos até a próxima atrocidade verbo-ideológica do presidente-improvisador e até a reunião do G20 na próxima quinta-feira. Vamos em frente até a quebradeira geral bater em nossas casas, subtrair empregos e salários e consolidar a insegurança em que já vivemos há muito no Brasil, em todos os sentidos e direções.
A inação e o silêncio só servirão para nos apequenarmos cada vez mais, para dar razão aos patrões que demitem sem culpa e nenhuma consciência em um momento, no mínimo, delicado. Mas a vida, hoje, não está para delicadezas. Nunca esteve. Tudo parece cada vez mais brutal: a cobiça, a ganância, a desigualdade, a inocência, a ignorância, a desfaçatez, a intolerância e o silêncio.
Essa é minha única vida – e o mundo do qual sou obrigado a me lembrar. Por enquanto, o saldo total é cada vez mais negativo. Também faço muito pouco ou quase nada, mas tento, aqui e ali, dizer alguma coisa entre as pessoas com as quais tenho contato. É uma ação insuficiente, com pouca efetividade prática. Mas eu grito, me desespero com duas filhas para criar, centenas de alunos para me ouvir, a vida para ser resolvida todos os dias e poucas direções para dar, até para mim mesmo. É hora de agir, porque quero contar uma história diferente para minhas filhas – e não aquela ladainha deprimente de que não tive opções. Posso não ter agora, mas vou dormir pensando nelas. Amanhã, espero ter outra história para contar. Façamos. É isso e quase tudo.
Intocáveis e invencíveis
Não tenho mais nenhuma ilusão de um dia ver algum desses criminosos travestidos de parlamentares atrás das grades e devolvendo o que nos roubou. Eles são muitos, e invencíveis. Sob fogo cruzado de denúncias, juntam-se para se defender, como fizeram PT e PMDB no Senado, embora digam sempre que é pela instituição, a mesma que eles aviltam e apequenam com seus atos.
O dinheiro roubado de nossos impostos, teoricamente, pode até ser recuperado, mas o crime de desmoralizar uma instituição democrática não tem preço.
O que nos resta? Confiar na Justiça? Na Polícia? No ladrão? Com Sarney e Renan comandando o Senado e espantados com a descoberta das 181 diretorias? A maior parte foi criada pelos dois. O resto, por Jader, ACM e Lobão. E pior. Foram criadas por resoluções da Mesa e ninguém reclamou. E mesmo se reclamasse não adiantaria nada. Tudo dentro da lei, na liturgia do cargo.
Seria um exagero comparar as disputas pelo poder no Congresso com as guerras de quadrilhas pelos pontos de venda de drogas nas favelas cariocas? Só porque uns vendem crack e cocaína e outros, privilégios e ilegalidades? Guerra é guerra, vale tudo na disputa pelos pontos de poder. Se um tiroteio é de balas, o outro é de números e nomes, mas sempre sobram balas perdidas. Mas, quando o cerco aperta, os dois bandos acertam um armistício: o verdadeiro inimigo é a policia. Ou, no caso do Senado, a opinião pública. Porque eles não temem a polícia. Nem a Justiça. Eles só têm medo de perder eleição.
Diante do pacto de não agressão entre os dois bandos, resta-nos confiar nos ódios, nas invejas e nos ressentimentos das legiões de apadrinhados que estão perdendo a boca e se vingando de seus traidores. Que muitas falas perdidas encontrem seus alvos.
Diante da certeza de que eles vencerão, que jamais pagarão por seus crimes, que continuarão ricos e corruptos, e até mesmo respeitáveis, resta-nos ridicularizar suas figuras toscas, seus figurinos grotescos, seus cabelos tingidos, suas caras botocadas. Para que suas esposas e amantes leiam, e seus filhos se envergonhem deles no colégio. Como nós nos envergonhamos todo dia.
Acabou ? Foi um rio que passou em nossas vidas, para usar a imagem do mestre Paulinho da Viola, só que mais caudaloso e com várias margens – além da terceira do Rosa. A única coisa dentro das minhas referências em que encontro algo parecido com o Radiohead é João Guimarães Rosa de Magma (com desenhos de Poty) ou Sagarana (em forma de lenda) – e às vezes, lá longe, o velho e bom Frank Zappa, os arautos do prog e do krautrock alemães como o Kraftwerk, a no wave novaiorquina e o que mais ? Não sei.
O Radiohead, pelo que mostrou hoje à noite em São Paulo, continua sendo uma banda que não se encaixa em tags, caixas ou quadrados. O Radiohead, mesmo com 20 anos de estrada, continua a ser a esfinge do rock. E é bom não decifrá-la – ou então estaremos sujeitos à mesmice e ao mais do mesmo com os vícios da crítica e da cultura; não por culpa do Radiohead, que superou essa discussão há pelos menos 10 anos. Vamos dormir com a experiência do novo. O futuro é amanhã, depois do Radiohead.
Águas de Serra
Águas que correm,
claras,
do escuro e dos morros,
cantando nas pedras a canção do mais adiante,
vivendo no lodo a verdade do sempre-descendo...
Águas soltas entre os dedos da montanha,
noite e dia,
na fluência eterna do ímpeto da vida...
(Águas da Serra – João Guimarães Rosa – Magma)
O ímpeto da vida, vamos ficar por aqui. É um bom começo depois de João, Paulinho da Viola, Frank Zappa, Los Hermanos, Kraftwerk e Radiohead. É a certeza de que estamos vivos, capazes de pensar no mais adiante do poeta e do sambista, da arte e na música do americano, dos cariocas, dos alemães e dos ingleses. No fundo, estamos todos (ou quase todos – os idiotas ainda não acordaram) na luta contra as regras, o certo e o errado, o já feito que não deu certo.
O Radiohead, como seus antecessores, mostrou que tudo pode ser feito de novo, na música e na vida. Quem se habilita ? Estou dentro.